segunda-feira, 25 de outubro de 2010

EVS USP - MODII - SEMANAS 1 e 2 - VIDEO-AULAS 1,2,3, 5 e 6 - A LOIRA DO BANHEIRO

A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais.
Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. XXVI


            A proposta que segue é o resultado das reflexões acerca do desenvolvimento moral da criança e do adolescente e de como a educação formal interfere nas transições entre os estados de anomia para heteronomia e desta para a autonomia, percebendo esta última como condição para o pleno exercício da cidadania. Há aqui a pretensão de por em prática os construtos teóricos elaborados a partir da minha vivência como professora/aprendiz no curso EVS USP e no Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade.


          A educação básica recebe sujeitos em uma faixa etária compreendida dos 6 aos 15 anos aproximadamente. Sujeitos estes que, além das propostas curriculares referentes aos componentes curriculares, estão aprendendo noções convivência social, mas que ainda não as internalizaram. Nesse processo de aprendizagem, é fundamental provocar situações que possibilitem o desenvolvimento de múltiplas perspectivas por meio de situações-problema, a fim de que esse cidadão em potencial consiga valorar, questionar e a transcender pressupostos. Sendo assim, a escola como instância mediadora entre a família e a sociedade possui um papel precioso na formação para a cidadania. 


      Porém, não se pode confundir o desenvolvimento de valores com "lições de moral", pois a formação da  (e para) cidadania” é um processo cotidiano e intencional, não uma expressão politicamente correta em um plano pedagógico. A partir de tal perspectiva, desenvolvem-se metodologias dialógicas pautadas no respeito mútuo envolvendo o aluno em situações reais que proporcionem a reflexão critica, a ação e a transformação do contexto "glocal".

       Partindo desse princípio, segue um relato de uma sequência didática realizada em 2010, com alunos da 6ª série (7º ano) de uma escola de ensino fundamental da rede pública do município de São Paulo. Denominada "A Loira do Banheiro", a sequência didática recebeu esse título, pois no ano anterior, enquanto trabalhávamos o gênero "Conto", esses mesmos estudantes realizaram estudos literários das lendas urbanas tendo como referência o livro "A Loira do Banheiro e outras histórias" (Eloísa Prieto). 


        Nesta sequência didática, trabalhando o gênero "Cartas de Solicitação", eles realizaram um levantamento de uma situação-problema: a degradação dos banheiros da escola, debateram acerca das causas desse problema comum, aventaram soluções e até mesmo abriram espaço para uma discussão interessante a respeito da "propriedade" do espaço público no Brasil e no mundo. Segue, então, os detalhamentos desse trabalho.
        


SEQUÊNCIA DIDÁTICA: A LOIRA DO BANHEIRO



 COMPONENTE CURRICULAR: Língua Portuguesa
ANO E CICLO: 7º ano (6ª série), Ensino Fundamental II. 
TEMPO ESTIMADO: duas semanas.
TEMAS TRANSVERSAIS/ CONCEITOS DA DIMENSÃO GLOBAL: Resolução de Conflitos, Valores e Percepções, Desenvolvimento Sustentável.
POSSIBILIDADES INTERDISCIPLINARES: Ciências Naturais, História, Geografia, Artes, Inglês, e Matemática.



TÓPICOS DO CURRÍCULO[1]


1. MODALIDADE ESCRITA - Leitura e Produção
  • Relacionar carta de solicitação ou de reclamação ao seu contexto de produção (interlocutores, finalidade, lugar e momento em que se dá a interação) e suporte de circulação original (objetos elaborados especialmente para a escrita, como livros, revistas, suportes digitais).
  • Estabelecer conexões entre o texto e os conhecimentos prévios, vivências, crenças e valores.
  • Inferir o sentido de palavras ou expressões a partir do contexto ou selecionar a acepção mais adequada em verbete de dicionário ou de enciclopédia.
  • Correlacionar causa e efeito, problema e solução, fato e opinião relativa a esse fato, tese e argumentos, definição e exemplo, comparação ou contraste, para estabelecer a coesão da seqüência de idéias.
  • Identificar repetições e substituições, relacionando pronomes ou expressões usadas como sinônimos a seus referentes para estabelecer a coesão.
  • Planejar cartas de solicitação ou de reclamação: pesquisar fórmulas de abertura e de desfecho, formas de tratamento.
  • Produzir cartas de solicitação ou de reclamação, levando em conta o gênero e seu contexto de produção, estruturando-o de maneira a garantir a relevância das partes em relação ao tema e aos propósitos do texto e a continuidade temática.
  • Revisar e editar o texto focalizando os aspectos estudados na análise e reflexão sobre a língua e a linguagem.
2. ANÁLISE E REFLEXÃO SOBRE A LINGUA E A LINGUAGEM
  • Identificar possíveis elementos constitutivos da organização interna do requerimento, cartas de solicitação ou de reclamação: data, invocação, explanação do assunto, fecho e assinatura.
  • Examinar em textos o uso de tempos verbais no eixo do presente para reconhecer os eventos anteriores e posteriores a esse tempo (pretérito perfeito / futuro do presente).
  • Examinar em textos o uso de vocabulário técnico.
3. ESCUTA E PRODUÇÃO ORAL
  • Relatar e comentar experiências e acontecimentos que requeiram reclamações ou solicitações.
  • Encenar situações sociais diversificadas que envolvam reclamações e solicitações.
  • Empregar palavras ou expressões que funcionam como modalizadores para atenuar críticas, proibições ou ordens potencialmente ameaçadoras ao interlocutor como “talvez”, “é possível”, “por favor”.
  • Trocar impressões.
  • Avaliar a expressão oral própria ou alheia em interação.
4. JUSTIFICATIVA
           
            Após realizarmos a avaliação dos resultados alcançados na questão dissertativa de Língua Portuguesa da Prova da Cidade realizada em 03/08/2010, verificamos que, em sua grande maioria, os alunos das cinco turmas do 7º ano do ciclo II de uma EMEF da Zona Leste de São Paulo não conseguiram alcançar as expectativas de aprendizagens compatíveis com o ano e ciclo em que se encontram. Concomitantemente, observamos que as relações interpessoais estabelecidas no meio escolar apresentam certas lacunas, gerando vários conflitos. Percebemos, então, a necessidade da realização de um trabalho de recuperação dos conhecimentos curriculares.


                 Concomitantemente, verificamos que, apesar do esforço de alguns membros da comunidade escolar, muitas áreas estruturais estavam bastante degradadas.  Como se trata de uma escola muito grande, elegemos um problema comum e alvo de constantes reclamações como o "objeto" das reflexões que justificaram a elaboração do requerimento à equipe gestora : a situação dos banheiros utilizados pelos alunos.

            Efetuamos um levantamento das opiniões com base na escuta e valorização das queixas que os usuários apresentaram a respeito das condições de higiene, falta de segurança e privacidade, encanamento e manutenção deficitários. A equipe gestora também se posicionou explicando o impacto dos gastos gerado pelos consertos de vasos e pias entupidos por rolos de papel higiênico e sabonetes, da constante reposição das trancas das portas das cabines, da pintura das pichações, ressaltando o emprego de verba pública em todas essas ações.

            A partir disso, os alunos foram orientados a formalizar suas insatisfações por meio de uma carta endereçada à equipe gestora da escola em questão, sugerindo mudanças e, principalmente, propondo uma parceria objetivando a adequação dos banheiros às condições básicas de saúde e conforto e empreendimento de esforços para a manutenção das melhorias alcançadas.  
           
5. OBJETIVOS 
  • Elaboração e entrega de uma carta de solicitação para modificações dos banheiros da escola;
  • Recuperação dos procedimentos de elaboração de cartas e requerimentos, previstos nas expectativas de aprendizagem para o 7° ano do ciclo II do ensino Fundamental.
  • Desenvolvimento de habilidades, conhecimentos, valores e atitudes que permitam aos alunos participarem ativamente da transformação da situação-problema.
6. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
  • avaliação diagnóstica com base na análise dos resultados alcançados pelos alunos do 7° ano do ciclo II na questão dissertativa da Prova da Cidade.
  • reflexão acerca da possibilidade de aplicação dos conteúdos curriculares na transformação da realidade escolar, eleição da “situação-problema”.
  • levantamento das opiniões dos alunos, da equipe gestora, professores e demais funcionários das causas e possíveis soluções para esse problema (captados em vídeo).
  • elaboração de uma carta endereçada à equipe gestora, solicitando as adequações necessárias à limpeza e higiene do local e propondo parcerias para manutenção do espaço. 
7. CONCEITOS DA DIMENSÃO GLOBAL ALIADOS AOS TÓPICOS CURRICULARES NA SEQUÊNCIA "A LOIRA DO BANHEIRO"


7.1. RESOLUÇÃO DE CONFLITOS
  • Levantamento das causas da degradação dos espaços públicos n escola, no Brasil e no mundo.
  • Como conciliar "usos" de um espaço comum respeitando meu direito e o direito do outro de usufruí-lo?
7. 2. VALORES E PERCEPÇÕES
  • Por que e como agir para modificar uma realidade que lhe incomoda?
  • O que é meu, o que é seu e o que é nosso em um espaço público?
  • Qual o valor dos espaços públicos, e, principalmente, da escola pública?
7.3. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
  • Como evitar o desperdício da água, do papel, do sabonete, utilizando-os, conforme determina as normas de higiene e prevenção de doenças, mas de modo racional, sabendo-os coletivos?
  • Como preservar o espaço público evitando o gasto desnecessário de recursos financeiros públicos?
8. MATERIAIS
  • Conto "A Loira do Banheiro";
  • Caderno, lápis, caneta, lousa, giz.
  • Caderno de Apoio e Atividade 7º ano, ciclo II (SME DOT)
  • Câmera digital com funções de filmagem e fotografia.
  • Programa de edição Windows Movie Maker (ou outro de sua preferência) 


OBS.: os materiais utilizados podem ser adptados conforme os recursos de cada escola.

Alguns resultados

A carta

São Paulo, 20 de setembro de 2010.

À Equipe Gestora da EMEF ...
Prezados,

            Os alunos das turmas do sétimo ano do Ciclo II gostariam de informar que é preocupante a situação em que se encontram os banheiros da nossa escola. Esta EMEF possui três banheiros para os alunos, um em cada andar, mas somente o do térreo permanece aberto e este não tem cabines suficientes para atender a demanda do período. Em certas ocasiões, o referido local fica superlotado, como, por exemplo, após as aulas de Educação Física.
            É muito comum faltar água, ora porque não tem realmente, ora porque várias torneiras são utilizadas ao mesmo tempo. Ainda sobre a questão das torneiras, outro incidente bastante recorrente é recebermos um esguicho forte causado pela pressão desregulada. Gostaríamos de salientar que a falta de água, além de ser um transtorno, expõe nossa saúde a sérios riscos, pois não há como lavarmos as mãos após utilizarmos o banheiro. Neste ponto, observamos também que a ausência de sabonete, papel higiênico e papel toalha compromete uma perfeita limpeza, favorecendo o surgimento e transmissão de doenças.
            A segurança é outro fator preocupante por vários motivos. Primeiramente, porque o chão permanece constantemente molhado, favorecendo possíveis quedas e consequências desagradáveis. Nossa privacidade é quase sempre invadida, uma vez que as portas das cabines não tem o comprimento adequado, o que nos deixa expostos. Além disso, não há trancas e, por engano ou não, sempre há casos de alunos que são surpreendidos por outros quando estão utilizando a cabine.  Infelizmente também, houve vezes em que alunos tiveram sua intimidade exposta ao serem fotografados pelos colegas que utilizaram máquinas de celulares. 
            É claro que a responsabilidade por tudo isso não cabe somente aos Senhores. Há muitos casos de utilização inadequada desse espaço como, por exemplo, os colegas que não costumam acionar a descarga, os que picham as portas, os que entopem os vasos e pias com papel, chicletes e toda sorte de objetos. Temos ciência da nossa parcela de responsabilidade e, para tanto, estamos aqui propondo um acordo:
  • Pedimos que os Senhores considerem o que foi escrito na presente carta e, na medida do possível, tentem solucionar os problemas expostos. Por outro lado, nos comprometemos a preservar e a auxiliar na manutenção de todas as melhorias obtidas. Pensem com carinho na possibilidade da instalação de espelhos nos banheiros de ambos os sexos. Pode parecer supérfluo, mas isso também faz parte de uma tentativa de autocuidado e preservação da nossa imagem.
 Na esperança que possamos estabelecer uma grande parceria, despedimo-nos respeitosamente,

Os alunos das turmas do 7° ano do ciclo II 




O Vídeo


O material a seguir é uma curta edição das opiniões levantadas a respeito da degradação do uso do espaço público (banheiros) em uma escola da rede municipal de São Paulo. Mostra também a expectativa dos alunos sobre a possibilidade de mudança dessa situação e sobre as dúvidas que cercam a utilização desses espaços. 


Obs.: a captação da imagem de cada estudante foi devidamente autorizada por seus responsáveis legais.






REFERÊNCIAS


___________ .Escola, democracia e a construção de personalidades morais. Educação e Pesquisa. São Paulo: Feusp,v.26, n.2, pp.91-107.
___________. O ambiente escolar cooperativo e a construção do juízo moral infantil: sete anos de estudo lingitudinal. Revista Online Bibl. Prof. Joel Martins. Campinas, SP, v.2, n.2, p.1-12, fev.2001.
___________. Temas Transversais e a Estratégia de Projetos. São Paulo, Moderna, 2003.
BOTO, C. A civilização escolar como projeto político e pedagógico da modernidade: cultura em classes, por escrito. Caderno Cedes, Campinas, v.23, n.61, p.378-397.
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BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Assistência à Saúde. ABC do SUS — Doutrinas e princípios. Brasília: 1990.
BRASIL. Organização Panamericana de Saúde. 31 de maio — Dia mundial sem tabaco. Boletim Informativo. Brasília: 1995.
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CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Coleção Campo Teórico. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
CHAUÍ, Marilena Souza. Cultura e democracia. 9ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2001
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DEJOURS, C. Por um novo conceito de saúde. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, n. 54, v.14, abr./maio/jun. 1986.
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MACEDO, Débora Maria. EROS e a ESCOLA ou O Princípio do Desempenho, Prometeu, Narciso, Orfeu, Eros, Thanatos, Marcuse e a Escola. Disponível em  http://bombalaio.blogspot.com/search?updated-max=2010-10-15T04%3A17%3A00-07%3A00&max-results=1
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PRIETRO, Heloísa.  A Loira do Banheiro e outras histórias. São Paulo, Ática, 2008.
Projeto Araribá: português/ obra coletiva. 1. Ed. Moderna. São Paulo, 2006. http://www.moderna.com.br/didaticos/ef2/arariba/portugues/
SME/SP DOT. Cadernos de apoio e aprendizagem: Língua Portuguesa/ Programas Ler e Escrever e Orientações curriculares. Livro do Professor. São Paulo: fundação Padre Anchieta, 2010. Sétimo ano, vol. 1, il. Disponível em: http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Documentos/Publicacoes/cad_ap/Apre_LP.pdf
SME/SP DOT. Orientações curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem para o Ensino Fundamental: ciclo: Língua Portuguesa / Secretaria Municipal de Educação – São Paulo: SME/DOT, 2070. Disponível em: http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Documentos/BibliPed/EnsFundMedio/CicloII/OrientacpesCurriculares_proposicao_expectativas_de_aprendizagem_EnsFundII_portef2.pdf
TAVARES, Nilda Tevês. Cidadania, uma questão para a Educação – 8ª. Ed. Rio de Janeiro: nova Fronteira, 1993.
UNICEF — Fundo das Nações Unidas para a Infância. Situação mundial da infância — 1993. Nova York: 1993.

EVS USP Vídeo-Aulas:
EVS USP MÓDULO I:
EVS USP MÓDULO II:
Vídeo-aula 5 : Educação e ética
Vídeo-aula 6 : A construção psicológica dos valores

[1] Adaptado do Referencial de Expectativas de Aprendizagem na Área de Língua Portuguesa – SME DOT.
[2] Cadernos de Apoio e Aprendizagem, Vol. I, Unidade 1, pg. 5 a 34; e livro didático Projeto Araribá Unidade

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