sábado, 6 de novembro de 2010

MOD II - SEMANA 2 - VIDEO-AULA 7 - CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO PONDERAL

Uma criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita
Machado de Assis, Dom Casmurro

         Através de um novo olhar, Bentinho retrata Capitu na citação acima. Porém, antes, soube às escondidas que sua ida ao seminário seria adiantada em função de uma suspeita de namoro entre os dois jovens. Ir para o seminário implicava separar-se da super proteção materna, das conveniências de filho único, dos resquícios da infância. Todavia, tal perspectiva não lhe pareceu tão aterradora quanto o fato de enxergar Capitu como objeto de um afeto mais inquietante que o infantil.


            Bentinho descreve uma jovem que, passadas as 1ª e 2ª infâncias, encontrava-se provavelmente em alguma fase do seu estirão puberal. Fase esta que parece iniciar-se no narrador a partir do momento em que se confronta com a possibilidade da mudança da relação com sua amiga de infância, ou seja, em um momento posterior ao de Capitu, como se percebe no trecho abaixo:

Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga.


             O restante da história, já sabemos ou, para quem não sabe, “é tempo!”, nas palavras do próprio Machado de Assis. Mas e o início? Que transformações ocorreram em Bentinho e Capitu para que chegassem a esse ponto de desenvolvimento físico e psicológico? Da ficção para a realidade, e resguardadas todas as licenças poéticas, as personagens de Dom Casmurro não diferem de qualquer jovem, pois o crescimento e desenvolvimento ponderal é um fenômeno biológico comum a todos os indivíduos.

         Durante um tempo, é recorrente, ouvirmos sentenças do tipo: “Como esse (a) menino (a) cresceu!” proferidas pelas tias velhas, madrinhas ausentes ou conhecidos que só aparecem nas festas anuais. Paradoxalmente, a ciência prescreve que o crescimento é uma curva descendente, ou seja, quanto mais se “cresce” menos se cresce. Isso significa que, excetuando-se o período pós-natal, o processo de crescimento desacelera-se à proporção que o indivíduo se desenvolve, alcançando um pico acentuado na fase chamada estirão puberal, mas que não se compara aos índices estabelecidos na primeira infância.

         Acompanhando toda essa revolução física marcada pelo aumento da estatura e do aparecimento dos caracteres sexuais secundários, uma revolução “invisível”, mas potencialmente marcante ocorre quase que ao mesmo tempo nesta fase do desenvolvimento em que “o menino e a menina atingem razoável grau de independência psicológica em relação aos pais” (Herbert, 2002, p.18). Neste ponto do texto, tenhamos cuidado, pois adentramos em um território perigoso, habitado por uma criatura com sete cabeças, braços maiores que o corpo e poderes sobrenaturais: O Adolescente!

         De tão temida, a adolescência tornou-se um verdadeiro animal mitológico nas culturas industriais ocidentalizadas. Em sociedades distintas, ocorrem cerimônias de iniciação que inserem a criança (social e fisicamente) no mundo adulto no momento em que chagam à puberdade independente da idade que tiverem. Em contextos socioculturais ocidentalizados, a adolescência teve que ser “inventada”, adiando o encontro da criança com as responsabilidades adultas.
        
         Machado adia a transformação de Bentinho em Dom Casmurro por meio de sua estadia no seminário, da ida à Europa, do casamento, das mortes dos entes amados, da mais perfeita suspeita de traição, da solidão auto impingida. Por outro lado, Capitu, descrita como dona de “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” desde o inicio da narrativa que coincide com sua entrada na puberdade, é nos apresentada pronta, “alta, forte e cheia” de determinações e projetos.



-Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, -para dizer alguma coisa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.



         Tragado pelos olhos de Capitu, Bentinho rasga o casulo da puberdade. Contudo, nenhuma experiência o preparou para lidar com sua imagem refletida em meio ao que denominou de ressaca. A ignorância de Narciso foi determinante para sua felicidade ao apaixonar-se por si mesmo refletido nas águas calmas do lago. A Bentinho não coube a mesma sorte, pois viu-se em águas tormentosas através dos olhos de Capitu e, quem sabe por isso, deixou-se levar pela insegurança durante seu tempo de convivência com ela. 

Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
-Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.







REFERÊNCIAS:
EVS USP - VIDEO-AULA 7 - CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO PONDERAL



HERBERT, Martin. Convivendo com Adolescentes. Tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. 2ª Ed, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

Um comentário:

  1. Sou fã de Machado e tenho o prazer de ler esta feliz simbiose aqui em seu belo blog, Débora.
    Excelente! Agora sou seu fã tambem.
    Um beijo!

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